Em 1995, a Coreia do Sul enfrentava uma crise silenciosa. Os aterros sanitários estavam no limite. A taxa de reciclagem era baixa, o descarte irregular era comum e o país não tinha infraestrutura suficiente para lidar com o volume crescente de resíduos gerados por uma economia em acelerada expansão.
O cenário tinha uma semelhança inquietante com o que o Brasil vive hoje.
A diferença é o que aconteceu depois.
A virada que ninguém esperava
Em vez de construir mais aterros, o governo sul-coreano tomou uma decisão que parecia radical na época: tornou o descarte caro e a reciclagem conveniente.
Em 1995 foi introduzido o sistema de cobrança por volume de lixo gerado — o cidadão passou a pagar proporcionalmente ao que descartava no lixo comum, enquanto materiais recicláveis eram coletados gratuitamente. A lógica era simples: quem separa não paga. Quem não separa, paga mais.
O resultado foi imediato. A geração de resíduo comum caiu. A separação na origem aumentou. E o sistema de coleta seletiva, antes subutilizado, passou a ter volume suficiente para se tornar economicamente viável.
Nos anos seguintes, o país foi além. Criou um sistema de responsabilidade estendida do produtor — obrigando fabricantes a financiar a coleta e reciclagem das embalagens dos seus próprios produtos. Investiu em infraestrutura de triagem. Construiu uma cultura de separação que hoje faz parte do cotidiano de praticamente todos os sul-coreanos.
O resultado: de menos de 5% de reciclagem nos anos 90 para 54% hoje — a maior taxa entre todos os países da OCDE.
O que está por trás desse número
A taxa de 54% não é fruto de sorte ou de uma população naturalmente mais consciente. É o resultado de um sistema desenhado para funcionar — onde cada etapa da cadeia tem responsabilidade clara, infraestrutura adequada e dado confiável.
Na Coreia do Sul, cada tonelada de resíduo tem rastreabilidade. Cada empresa que coleta, trata ou destina opera dentro de um sistema integrado de informação. A documentação ambiental não é burocracia — é o que mantém o sistema funcionando e o que permite ao governo, às empresas e aos cidadãos saberem exatamente onde cada material foi parar.
É exatamente esse nível de controle que separa um país que recicla 54% de um que recicla 4,5%.
O que o Brasil pode aprender
A lição mais importante da Coreia do Sul não está na tecnologia de ponta nem nos números impressionantes. Está em algo mais fundamental: o país decidiu levar o resíduo a sério — e construiu um sistema onde essa seriedade tem consequências reais para todos os envolvidos.
No Brasil, o caminho é mais longo. O país produz 81 milhões de toneladas de resíduos por ano, recicla 4,5% e ainda tem 3 mil lixões ativos. A distância entre os dois países é grande — mas não é intransponível.
E ela começa a ser percorrida exatamente pelo tipo de trabalho que as empresas de coleta e destinação fazem todos os dias: organizar o fluxo, documentar cada etapa, dar destino correto ao que o mundo descarta e transformar volume em dado confiável.
A Coreia do Sul levou três décadas para chegar onde está. O Brasil não precisa de três décadas — precisa de mais empresas operando com o mesmo nível de controle, rastreabilidade e seriedade que tornaram o modelo sul-coreano uma referência mundial.
O ponto de partida é o mesmo de sempre: tratar cada tonelada como se ela importasse. Porque importa.
(Fonte: Global Waste Index 2025 — Sensoneo / Abrema 2025)


