Em 2025, cientistas do Cemaden e do INPE confirmaram algo que os dados vinham sinalizando há anos: o Brasil tem sua primeira zona árida oficial. Uma região onde a precipitação média anual caiu de forma persistente e consistente ao longo das últimas três décadas, alterando de forma permanente as condições do solo e do clima local.
É um marco que não ganhou a manchete que merecia. Mas que tem consequências muito concretas para milhões de pessoas — e uma conexão direta com uma questão que o setor de resíduos conhece bem.
38 milhões de brasileiros e um solo que está desaparecendo
A desertificação não é um fenômeno exclusivo de regiões áridas distantes. No Brasil, 38 milhões de pessoas vivem em áreas suscetíveis a esse processo — espalhadas principalmente pelo Semiárido nordestino, mas com avanço registrado em outras regiões do país.
O processo se alimenta de múltiplos fatores: mudanças no padrão de chuvas, uso inadequado do solo, desmatamento, queimadas. Mas existe um vetor que raramente aparece nessa lista — e que tem relação direta com o trabalho de quem opera no setor de resíduos.
O descarte irregular.
O elo que falta na conversa
Quando o resíduo vai para o lugar errado — um lixão a céu aberto, um terreno baldio, uma margem de rio — ele não some. Ele se decompõe, libera substâncias tóxicas e contamina o solo ao redor. O chorume, líquido escuro gerado pela decomposição dos resíduos, infiltra-se no solo e alcança o lençol freático, comprometendo a qualidade da água subterrânea que abastece comunidades inteiras.
Solo contaminado perde capacidade de reter água. Perde nutrientes. Perde a vegetação que o protegia da erosão. E solo sem vegetação seca mais rápido, aquece mais, e se torna mais suscetível ao processo de desertificação.
A cadeia é longa, mas o ponto de partida é simples: o destino errado de uma tonelada de resíduo tem consequências que vão muito além do pátio onde ela foi descartada.
Cuidar do resíduo é cuidar da terra
Essa conexão raramente aparece nos debates sobre desertificação. O foco costuma ser nas políticas de reflorestamento, na gestão hídrica, nas mudanças climáticas globais. Tudo isso importa — mas a resposta também está no trabalho cotidiano de quem garante que cada tonelada de resíduo chegue onde deve chegar, com o documento que comprova, sem contaminar o solo pelo caminho.
No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, comemorado em 17 de junho, a mensagem é simples: preservar o solo começa em decisões que parecem pequenas. Na rota planejada. No MTR emitido antes da coleta. No CDF que prova destino.
A seca não começa só na falta de chuva. Começa também em cada tonelada que foi para onde não devia. E a resposta começa em cada tonelada que foi para onde deveria.
(Fonte: Cemaden / INPE, 2025)


