Existe uma ideia equivocada e bastante comum: a de que o impacto ambiental de um resíduo termina quando ele é recolhido e sai de vista. Os dados dizem o contrário. Um relatório publicado em abril de 2026 pela UCLA, com base em observações diretas do Carbon Mapper, identificou o Brasil entre os países com maior presença no ranking global de emissões superpoluentes de metano do setor de resíduos, com três locais entre os 25 principais pontos de emissão identificados em 2025.
Um gás muito mais potente do que parece
O metano tem potencial de aquecimento global mais de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono num horizonte de 20 anos. No Brasil, o setor de resíduos é a segunda maior fonte de emissão desse gás, atrás apenas da pecuária, com 3,1 milhões de toneladas emitidas em 2023, resultado principalmente da decomposição anaeróbia de matéria orgânica em lixões e aterros não controlados. As emissões de metano do país como um todo cresceram 6% entre 2020 e 2023, levando o Brasil ao segundo maior volume de emissão de CH4 do mundo naquele ano.
O problema não para na atmosfera. O mesmo processo que gera metano também compromete a qualidade do ar, aumenta riscos à saúde da população no entorno e contamina solo e cursos d’água próximos a locais de disposição inadequada.
O elo que ainda falta fechar
Uma fração significativa do problema nem chega a esse ponto do processo: cerca de 9% dos resíduos gerados no Brasil não são sequer coletados, sendo descartados ilegalmente, queimados ou liberados diretamente no meio ambiente. Some isso à parcela expressiva de resíduos que, mesmo coletada, ainda termina em lixões e aterros sem controle adequado, e fica claro por que o setor segue como fonte relevante de emissão, mesmo depois de anos de política pública voltada à erradicação de lixões.
Segundo o Observatório do Clima, medidas como o fechamento definitivo de lixões e o melhor aproveitamento do biogás em aterros sanitários poderiam reduzir em quase um terço as emissões do setor. O potencial de redução já é conhecido. O que falta é execução consistente, e execução consistente depende de saber, com precisão, onde cada resíduo está indo parar.
O que isso significa na prática
Para quem opera coleta e destinação de resíduos, a lição é direta: cada carga que termina num destino inadequado, por falha de controle, por rota mal registrada, por falta de rastreamento até o ponto final, não é só um problema de conformidade documental. É uma fonte real de emissão que segue poluindo depois que o caminhão já foi embora. Rastrear o destino final de cada resíduo não é apenas exigência regulatória, é a única forma de garantir que a coleta feita hoje não vire fonte de poluição amanhã.
(Fontes: UCLA/Carbon Mapper, Observatório do Clima, Clean Air Task Force)


