Por muito tempo, reciclagem e gestão de resíduos foram tratadas como pauta de sustentabilidade, algo bom para a imagem da empresa, mas distante do centro do negócio. Os números mais recentes contam outra história. Apenas em 2024, o setor de organizações de catadores movimentou mais de R$ 2 bilhões no Brasil, com potencial de reduzir 1,83 milhão de toneladas de CO₂ equivalente, segundo o Anuário da Reciclagem 2025 do Instituto Caminhos Sustentáveis. No mesmo período, o número de organizações de catadores cresceu 69% entre 2019 e 2024. O mercado de resinas plásticas recicladas, isoladamente, movimentou R$ 4 bilhões em 2024, e a reciclagem de plástico pós-consumo já supera 1 milhão de toneladas por ano no país.
A indústria já decidiu: reciclagem virou estratégia, não caridade
Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostra que seis em cada dez indústrias brasileiras já adotam alguma prática de economia circular, principalmente via reciclagem. Grandes empresas como Coca-Cola, Natura, Grupo Boticário e Unilever vêm ampliando investimento em logística reversa, cooperativas de reciclagem e novas fábricas capazes de reinserir material reciclado na produção. O motivo não é só ambiental: um decreto recente estabeleceu, pela primeira vez, metas nacionais de reciclagem, prevendo que o Brasil chegue a 32% em 2026 e 50% até 2040, com o uso de material reciclado em novas embalagens subindo de cerca de 22% para 40% no mesmo horizonte. Empresas que colocam embalagem no mercado sentem essa pressão diretamente, e isso empurra investimento para toda a cadeia.
O que sustenta esse crescimento
Especialistas do setor são categóricos ao apontar o que torna esse crescimento possível de continuar: rastreabilidade. Como resumiu um executivo do setor em evento recente sobre o tema, não existe economia circular sem uma economia de dados e rastreabilidade por trás dela. Sem saber a origem, a composição e o destino de cada material, não há como comprovar reciclagem, negociar contrato com indústria compradora, nem atrair capital de investidores que hoje monitoram de perto esse tipo de operação.
Onde está a oportunidade real
O crescimento do mercado de resíduos no Brasil para 2026 é impulsionado por três frentes que convergem: exigência ambiental crescente, pressão de ESG sobre grandes empresas e amadurecimento da economia circular como modelo de negócio. Nesse cenário, quem estrutura a própria operação de coleta, tratamento e destinação com dado organizado sai na frente. Quem ainda opera no improviso, sem rastreabilidade confiável do que coleta e para onde encaminha, fica de fora de um mercado que está deixando de girar em torno de boa vontade e passando a girar em torno de comprovação, contrato e histórico auditável.
A economia circular deixou de ser discurso. Virou modelo de negócio real, com bilhões em movimentação. E como todo negócio em expansão, vai recompensar quem chegar organizado.
(Fontes: Instituto Caminhos Sustentáveis, Confederação Nacional da Indústria, GS1 Brasil)


