Quando o governo federal anunciou, em março de 2026, a meta de elevar a taxa de reciclagem do Brasil de 1,82% para 34,5% até 2035, a reação natural de quem leu a notícia foi fazer as contas. São nove anos para cobrir uma distância de mais de 30 pontos percentuais — em um país que leva décadas debatendo o problema sem avançar na mesma velocidade com que o lixo se acumula.
A meta integra o Programa Cidades Verdes Resilientes, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e estabelece uma trajetória progressiva: 25,3% de recuperação de resíduos até 2030, chegando a 34,5% até 2035. O plano existe, o prazo está no papel e o desafio é concreto. O que ainda falta entender é quem vai, de fato, executar esse salto no dia a dia.
O que 1,82% significa na prática
Antes de celebrar a meta, vale entender o ponto de partida. O percentual de 1,82% corresponde a cerca de 159 mil toneladas por ano de resíduos orgânicos recuperados e 1,17 milhão de toneladas anuais de materiais recicláveis secos — em um país que gera dezenas de milhões de toneladas de resíduos urbanos por ano. É como tentar encher um reservatório com um fio d’água.
Esse número não reflete falta de material reciclável. O Brasil tem volume mais do que suficiente. O que falta é estrutura para capturá-lo antes que ele chegue ao aterro ou ao lixão. De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos 2024, apenas 8% dos resíduos secos que recebem destinação adequada são encaminhados para reciclagem — e 67,2% desse reaproveitamento é realizado por coletores informais, não pelos serviços organizados de coleta. Isso significa que o sistema formal ainda não chegou onde o material está.
O que o plano federal prevê — e onde a operação entra
Para alcançar as metas, o programa prevê ações estruturantes em pelo menos 35% dos municípios brasileiros, com foco na ampliação da coleta seletiva, na implantação de unidades de triagem e no fortalecimento de sistemas de compostagem para resíduos orgânicos.
Na prática, isso se traduz em mais contratos, mais rotas, mais volume operado e mais exigência por parte de quem contrata. Municípios que antes fechavam os olhos para a destinação vão precisar comprovar para onde o resíduo foi. Indústrias que precisam de material reciclado vão buscar parceiros que consigam rastrear e certificar a origem. E empresas de coleta que já operam com dados organizados vão estar na frente quando essa demanda crescer.
No primeiro ciclo da Lei de Incentivo à Reciclagem, realizado em 2025, 952 projetos foram apresentados com propostas distribuídas por 26 unidades da Federação, somando um volume de investimentos pleiteados de R$ 2,2 bilhões. O dinheiro está chegando. A questão é quem vai estar preparado para recebê-lo.
A meta só existe se houver quem a execute
Elevar a reciclagem de 1,82% para 34,5% não é uma tarefa de marketing ambiental. É uma tarefa de logística, rastreabilidade e gestão de informação — feita por quem coleta, pesa, documenta e destina o resíduo todos os dias.
Cada tonelada rastreada corretamente é um tijolo nessa construção. Cada MTR emitido dentro do prazo, cada CDF com validade jurídica, cada rota otimizada que evita retrabalho — tudo isso alimenta o sistema que transforma meta em número real.
O Brasil tem o plano. Tem a legislação. Tem o volume de resíduo. O que vai determinar se esse salto acontece é a qualidade de quem está na ponta — e a tecnologia que essa ponta usa para não deixar nenhuma informação se perder no caminho.


